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Economia Mundial e Brasileira

A dívida privada, sistema financeiro e caixas

A dívida privada, sistema financeiro e caixas

“Os números apontam das caixas de poupança para problemas de solvência, e não apenas de liquidez, em um número não desprezível de caixas de poupança, para cuja resolução pode não ser o suficiente com uma fusão”.

A economia espanhola enfrenta um exercício fundamental que marca o perfil de recuperação do próximo cinco anos. Entre os problemas a resolver, a situação do sistema financeiro ocupa o primeiro lugar. Neste sentido, o país deve digerir os excessos de crédito da última fase do boom imobiliário junto à mudança estrutural que a crise internacional está provocando nos mercados financeiros. Tudo isso, com as dificuldades de gestão acrescentadas à estrutura de propriedade, de quase a metade das instituições financeiras, as caixas de poupança, que retarda a busca de soluções.
O sistema financeiro português tem de lidar com um volume enorme de dívida, mas também à potencial evolução da dívida dos empréstimos ao sector privado não financeiro (famílias e empresas). Neste sentido, se bem é certo que o crédito às famílias e empresas representa mais de 177% do PIB, o forte crescimento dos últimos anos estava muito concentrado em setores relacionados com o boom imobiliário. O crédito às famílias foi localizado no 83,4% do PIB, embora três quartas partes se correspondem com o crédito hipotecário que registram índices de inadimplência reduzidas, 2,83% em dezembro de 2009.

Por sua parte, o crédito para atividades produtivas, saltou, nos últimos anos, acima de 88% do PIB, se bem que a metade corresponde a empréstimos concedidos à promoção imobiliária e da construção civil, setores que representam apenas 20% do conjunto da atividade. Assim, esta concentração permite uma interpretação menos negativa do processo de desalavancagem pendente do setor produtivo.

Deste modo, a demanda privada de crédito pode reanimarse antes do esperado, de modo que o lado curto do mercado é determinado pela oferta. Este diagnóstico parece preocupar as autoridades anunciaram uma ambiciosa ampliação da oferta de crédito do ICO. No entanto, a nossa primeira recomendação respaldaría o processo de consolidação fiscal para evitar um potencial efeito crowding-out nos próximos trimestres, descartando o desenvolvimento do ICO por suas implicações sobre a situação financeira do Estado.

Agora bem, uma vez localizado o problema na oferta de crédito é necessário cuantificarlo para procurar soluções alternativas. A cobertura para a prestação estatística dos créditos duvidosos líquidos das respectivas provisões específicas situa-se nas caixas de poupança em apenas 32%, doze pontos por debaixo dos bancos e mais de vinte e três pontos inferior à taxa de cooperativas. Deste modo, as caixas apresentam um pior perfil de risco que aumenta a notável exposição ao setor construtor e promotor, que representa 56% do conjunto da carteira de atividades produtivas.

Assim, os riscos parecem concentrar-se no segmento das caixas de poupança, e, para cuantificarlos podemos adiantar os efeitos de um crescimento da inadimplência até 9,0% 5,36% registrado no mês de janeiro. Sob este pressuposto, moderadamente conservador, as caixas registrarían um défice da margem normal de 14.869 milhões de euros, o que representa um impacto de 27,7% no patrimônio líquido do setor.

Além disso, parte dos créditos inadimplentes entrarão em recuperação e, ainda quando as garantias reais poderão diminuir as perdas, o impacto global sobre o patrimônio seria sensivelmente superior. Além disso, dada a elevada heterogeneidade do setor e a boa situação financeira de algumas das maiores instituições, o impacto poderia concentrar-se sobre um bom número de caixas.

Em suma, os números operadas apontam para problemas de solvência, e não apenas de liquidez, em um número não desprezível de caixas de poupança cuja resolução não pode passar por uma fusão. A boa notícia é que, ainda sob piores cenários, a dotação máxima de 90.000 milhões do FROB poderia ser suficiente (mas piorando as perspectivas de crescimento) para a recapitalização do sector financeiro, normalizando assim o mercado de crédito, sem a necessidade de iniciar aventuras arriscadas.

Além disso, a situação das caixas de poupança coincide no tempo com a nova revisão do acordo de capital de Basileia (Basileia III), que dará um papel preponderante sobre o capital e as reservas dentro dos recursos básicos e limitará o cálculo financiamento híbrida e financiamento subordinada. Na mesma linha, esta crise colocou luz sobre os problemas decorrentes da indefinição da natureza jurídica das caixas que parecem explicar o atraso dos processos de fusão e recapitalização. Por tudo isso, é urgente a implementação direta do FROB, para rever depois a estrutura de propriedade das caixas de poupança.