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Economia Mundial e Brasileira

Após a intervenção do BCE, já não vivemos em um mercado Normal

Após a intervenção do BCE, já não vivemos em um mercado Normal

A grécia pode estar (ou não) resolvidos, e o LTRO do BCE tem injetado centenas de milhares de milhões, que, aliás, lhe foi devolvido para a sua própria conta corrente. E tudo isso para quê? A resposta é “para eliminar a volatilidade do mercado”, certo? Agora, com mais liquidez, tudo vai ser mais suave, haverá mais dinheiro para comprar a dívida, etc.

E o que acontece quando eliminamos a volatilidade artificialmente? Já explicamos no seu dia a Sintetia, e agora o repetimos. De acordo com O Cisne Negro de Taleb, os “sistemas complexos que suprimem artificialmente sua volatilidade se tornam muito frágeis”.

Quando dizemos que um mercado tem a volatilidade nos referimos a que a variabilidade de desempenho (diário) é superior à média desse desempenho. Um ativo como a dívida segue-se, normalmente, um esquema de variabilidade muito bem descrita por uma distribuição Normal. O que quer dizer isso? Sob este esquema de “curva do sino”, o desempenho diário deste ativo não costuma afastar muito da média. O mais comum é ver a dívida e o seu desempenho variar entre -2% e 2%. Quando o seu desempenho é um 0% e temos um caso “centrado”. Pois bem, a distribuição normal nos diz que a maior parte das observações estão perto da média (0%). Se nos afastamos muitas vezes /- 2% de nosso ativo deixa de assemelhar-se a uma “Normal”.

O que implicações tem o que a dívida deixar de agir “Normalmente”?

Em primeiro lugar, aumentam o número de casos que ocorrem fora ou longe de “media”, isto é, são observados mais casos ou movimentos bruscos! Algo que ocorre em um sistema artificialmente intervindo.

O mercado é “tocado” pelo BCE e a volatilidade do mercado há muito tempo já repuntado. O BCE introduziu a primeira LTRO (“barra livre” de liquidez) em 8 de dezembro, quando a volatilidade no bônus da Espanha a 10 anos era máxima.

Mas por que caiu? Porventura os compradores e vendedores estão confortavelmente comprando e vendendo de novo? Isso proporcionará o preço na mesma senda de comportamento. Mas não é assim. As compras agora têm um único motivo: levar esse ativo (dívida de Portugal) como colateral no BCE. A distribuição de riscos, não é em absoluto eficiente.

A partir de um ponto de vista mais técnico, a Normal, não descreve perfeitamente a distribuição de rendimentos, mas a comunidade científica aceita que aproxima bem que essa distribuição. Se nos livrarmos dela, entramos em terreno desconhecido para os gestores de riscos. Como vestimos e gerimos os nossos investimentos em um ambiente onde os modelos baseados em distribuições Normais são menos úteis? Isso, certamente, não ajudará a que o crédito volte a fluir. Isso não só não é uma crise de liquidez, mas também não de solvência. É uma crise de total desconcerto na “medição de riscos financeiros”.

Histograma Rendimentos Dívida Espanha 3 meses antes de Dezembro de 2011

Antes de o BCE europeia pudesse estar envolvida, 88% das observações de rendimentos da dívida se moveu dentro do intervalo /- 1 desivacion típica. Ou seja, havia um 12% de “casos mais raros” ou movimentos bruscos dos rendimentos. Além disso, estatisticamente, esta ditribución de rendimentos passava o teste de “Normalidade = YES”.

Histograma Rendimentos Dívida Espanha 3 meses depois de Dezembro de 2011

Após a intervenção do BCE, apenas 80% das observações encontram-se dentro da faixa /- 1 desivacion típica. Ou seja, temos 20% de “casos mais raros” ou movimentos bruscos dos rendimentos. Além disso, esta ditribución de rendimentos já NÃO passa o Teste de “Normalidade”.

PS: O teste estatístico de normalidade deve ser interpretado com cautela. O fato de ter uma amostra ou de outra (aqui tomamos janelas temporais de 3 meses) influencia muito. O interessante é observar um cenário em que a volatilidade diminuiu, mas os movimentos dos rendimentos são cada vez mais amplos.