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Economia Mundial e Brasileira

Cristiano Ronaldo e Kaká podem acabar nas mãos do BCE

Cristiano Ronaldo e Kaká podem acabar nas mãos do BCE

Um antigo dito popular afirma que, há séculos, um esquilo podia atravessar a península de Norte a Sul pulando de galho em galho. O desmatamento hoje faz impossível a metáfora, mas outro fenômeno tomou o lugar quanto à capacidade de atravessar sem oposição da península inteira: o futebol e, mais precisamente, as notícias que tenham a ver com o Barcelona e o Real Madrid. Então, vamos aproveitar a universalidade deste “interesse geral” para mostrar, não com metáforas, mas com um caso real, até que ponto a economia portuguesa (e europeia em geral) estão desapropriadas pelo Banco Central Europeu (BCE).

A notícia não é nova, mas pode lançar luz sobre o distante do alcance de leilões extraordinárias de liquidez que o BCE tem levado a cabo durante os últimos meses, em que foi prestado à banca europeia, algo mais de 1.000 milhões de euros a taxas de juros realmente baixos. Talvez os mais fãs possam sentir-se triste, mas esse é o real alcance da intervenção da economia espanhola.

Nossa história começa com a compra de dois “astros” por parte do Real Madrid, compra que o clube financiado por um empréstimo com Bankia. Falamos, claro está, de Cristiano Ronaldo e Kaká. O empréstimo, assinado em 2009, apareceu a figura de 76 milhões de euros. A quem pertence agora mesmo desse empréstimo? Efectivamente, ao BCE.

A notícia foi reproduzida pela imprensa internacional, primeiro em um jornal alemão e, posteriormente, no próprio Financial Times. Em particular, explicando que Bankia criou um Fundo de Titularização de Activos (“Madrid Ativos Corporativos V, FTA”), no qual se incluía o mencionado empréstimo ao Real Madrid para a compra de Cristiano e Kaká. Por outro lado, quando os bancos vão a leilões semanais do BCE, precisam contribuir com ativos como garantia para obter em troca a liquidez necessária para operar. E, a estas alturas já implica, Bankia contribuiu para o fundo criado a partir dos direitos dos futebolistas como aval para solicitar liquidez do BCE.

Isso deve bastar para ilustrar como a estratégia do “carry trade” pode afetar o cidadão comum. Um banco compra de dívida (no caso do Real Madrid, que coloca como garantia dos direitos sobre os atletas contratados) e a deposita no BCE como garantia para obter em troca de dinheiro. Essa garantia não tem por que ser dívida pública, mas também corporativa, como neste caso, e até mesmo dívida garantida com activos específicos dessas empresas.

Qual o alcance real tem tudo isso? Poderia dar-se a situação em que o BCE se há efetivamente com esses jogadores? Em teoria, é possível. Dois fatos teriam que acontecer:

O Real Madrid teria que cometer um calote para que se executem as garantias para seus empréstimos. E a dívida do Real Madrid é realmente alta.
Bankia teria que declarar-se insolvente. E essa entidade não pode se gabar de ser a mais solvente do panorama empresarial português.

Se essas duas coisas acontecerem, o significaria isso que Cristiano Ronaldo e Kaká passariam a ser funcionários do BCE? Poderia o assunto chegar ao ponto de que a política do BCE pode organizar partidillos com os mesmos em suas instalações desportivas em Frankfurt? Não tão longe. O aval só visa os direitos publicitários e de imagem dos jogadores. Mas lembre-se que esta foi a principal razão detido por Florentino Pérez para investir somas astronômicas na contratação desses jogadores. Não é incrível até que ponto nós hipotecado e alavancado para manter o nível de vida que tínhamos?

Por último, permitam-me uma pequena reflexão sobre engenharia financeira e futebol. O real Madrid está comprando jogadores através de empréstimos bancários, que posteriormente tituliza e acabam sendo descontados em frente ao Banco Central. Por outra parte, o banco que financia o Real Madrid transformou-se em um grupo bancário sob a estrutura de “banco mau”, o que lhe permitiu isolar o seu núcleo de negócio solvente e continuar operando. Bankia existe hoje, porque a estrutura do “banco mau” que adotou com BFA tem se mostrado, até à data, viável. A instituição não vive só dos “empréstimos ” subprime”, mas que pode chegar a ativos aparentemente tão voláteis como os direitos sobre jogadores, e o “banco ruim”, apesar do nome, não tem por que ser uma má idéia. A chave não está no processo de titularização ou da estrutura bancária, mas no que apoiamos com essas ferramentas financeiras.